sábado, 4 de agosto de 2007

Matéria orgânica que é um adubo natural esta sendo descartado como lixo!







Fotos do Parque Central, onde o Dpav está recolhendo toda a matéria orgânica e jogando no lixo desfertilizando o solo.

3 comentários:

Francisco disse...

José A. Lutzenberger

Nascido em Porto Alegre, José A. Lutzenberger formou-se engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1950 e fez pós-graduação em ciência do solo na Lousiana State University, 1951/2.
Ao constatar os estragos causados pelos agrotóxicos na agricultura brasileira, assim como a devastação ambiental em geral, ajudou a fundar um movimento ambiental militante, a AGAPAN, Associação Gaúcha de Proteção Ambiental. Tornou-se conhecido no Brasil inteiro.

Por trabalhar em cinco idiomas (Alemão, Inglês, Português, Frances e Castelhano), acabou tornando-se conhecido mundialmente, embarcando em intensiva atividade de palestras e participação em movimentos na Europa, América do Norte e do Sul, Ásia e África. Em 1987, criou a Fundação GAIA, para promover consciência ecológica e desenvolvimento sustentável, atualmente praticando e promovendo agricultura ecológica, regenerativa, educação ambiental para crianças e conscientização ecológica para a comunidade em geral.

Francisco disse...

Carta ao Prefeito de Estrela-RS sobre Paisagismo Urbano.
Agradeço o convite que me foi estendido para fazer uma visita à Cidade de Estrela - para avaliação preliminar da situação ecológica, com ênfase na Praça Central, no novo Parque Esportivo e nas árvores das vias públicas. Após o que pude observar, vejo-me numa situação algo difícil. Gostaria de poder fazer um relato todo positivo, com apenas algumas sugestões de ação complementar. No entanto, o somatório dos estragos que são consequência de tratamentos impensados e equivocados durante várias décadas é tal que já não se pode fácil ou rapidamente restaurar e reparar. O que podemos fazer de imediato é conter a continuação e ampliação dos danos.Para chegar a uma situação de parques, jardins e arborização sadia, viçosa e bela precisamos de uma reorientação fundamental. Quero deixar bem claro, entretanto, que, o que se constata em Estrela não é peculiar a esta cidade. Praticamente todas as cidades brasileiras, pequenas, médias ou grandes se encontram em situação semelhante. A coisa não é melhor em nossos países vizinhos. Quero citar apenas a Redenção em Porto Alegre, o Aterro do Flamengo e o próprio Jardim Botânico no Rio, outrora famoso. Durante as últimas décadas foi mantido por empresa de limpeza pública (!). O tratamento era todo em esquema esterilizante, os solos estão degradados, muitas das mais valiosas árvores estão precocemente decrépitas. Conheço este maravilhoso jardim desde os anos quarenta.Na época era maravilhoso! Em visitas sucessivas pude observar a progressiva decadência, inclusive a perda quase total de uma das mais valiosas coleções de plantas suculentas do mundo, por descaso. Outra coleção botânica valiosa, a coleção de cactáceas do Sr. Zuckerman, famosa no mundo, foi completamente perdida no Jardim Botânico de Porto Alegre. Até a década de quarenta, tínhamos no Brasil excelentes jardineiros e grandes jardins, particulares e públicos. De lá pra cá houve uma decadência progressiva. Hoje, a quase totalidade dos que se dizem jardineiros não passam de tosadores de grama, varredores de pátio e mutiladores de árvores. A administração pública e os proprietários de jardins particulares muito raras vezes exigem mais do que isto. Temos ótimos viveiristas, isto sim, produtores de mudas para pomares e flores para corte ou coleção, como no caso de orquídeas e cactáceas ou bromélias, especialmente em São Paulo, mas os grandes jardins, quando não sucumbiram a fúria imobiliária, ou estão em decadência, ou estão devastados. A situação dos verdes públicos, em geral, é calamitosa. Onde sobram complexos valiosos, eles assim estão, mais por negligência que por atenção. Mas, quando menos se espera, recebem atenção, na maioria das vezes uma atenção destrutiva, pois, na cabeça de muita gente, tudo o que é natural, tudo que se desenvolve livremente, sem coação humana, é tido como "mato" e "mato", no linguajar brasileiro, tem conotação pejorativa. O mais triste é que o público não nota e os administradores mal se dão conta do que está acontecendo, ou não dão valor. A maioria das pessoas está hoje tão alienada da Natureza, que com ela já não tem nenhum contato racional ou emotivo, não a sentem, não dialogam com ela, muitas vezes a temem. A prova mais patente desta situação é o estado das árvores nas vias públicas. É quase impossível encontrar árvores bem conduzidas, intatas, hígidas. Quase todas sofrem as consequências de muitos anos de maus tratos - as chamadas "podas". Estão com seus troncos ocos ou parcialmente apodrecidos, os galhos também em estado de decrepitude. Um madeireiro que quer obter boas tábuas para móveis ou para construção não se interessaria por elas. Onde a administração pública deixa de "podar", o público reclama, insistentemente pede "poda" ou a pratica por conta própria, fazendo mutilações muitas vezes ainda mais drásticas que as oficiais. Além dos estragos causados pelas prefeituras e pelo público, temos as violentas agressões da CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica-RS) que se acha no direito de, para proteger um cabo elétrico, por insignificante ou secundário que seja, poder praticar os mais absurdos vandalismos, tanto dentro como fora das cidades. Já ví demolirem figueiras centenárias, quando teria sido bem mais simples e mais barato desviar o fio. Os trabalhos não são entregues a pessoas qualificadas, mas a simples operários, que agem da maneira mais brutal possível - eficiente do ponta de vista deles. Não se importam sequer que os galhos que cortam, ao cair, antes de terminado o corte, rasguem lascas na parte inferior do tronco, ou eles decepam com machete ou machado, deixando dilacerada a ponta que sobra. As prefeituras, as grandes empresas e outros donos de parques e jardins costumam achar que basta entregar a um agrônomo. Mas, infelizmente, os agrônomos brasileiros não aprendem jardinagem e no Brasil não temos escolas de jardinagem, que eu saiba. Oxalá esteja equivocado. Se alguém conhece uma, que me avise. Assim também, uma técnica tão simples e fascinante como é a "dendrocirurgia" - cirurgia de árvores - que na Europa e América do Norte chega a ser profissão respeitada (tree surgery; Baumkosmetik) entre nós é ignorada nas Escolas de Agronomia, nas Escolas de Engenharia Florestal e nas Faculdades de Biologia. Nas árvores de rua, a despreocupação com o solo é quase total. Em geral, se acha que encher a cova de esterco ou matéria orgânica mal decomposta na hora do plantio, resolve o problema para toda a vida da árvore. Assim elas já começam a sua vida doentes. Na maioria dos casos, as árvores têm seu solo coberto de pavimento impermeável no passeio e na rua, raras vezes lhes dão canteiro com solo aberto. Quando isto acontece o solo é pisoteado, compactado, e não se permite que se cubra de matéria orgânica. As folhas secas são tidas como lixo e religiosamente removidas. A água da chuva não tem como penetrar e não há recuperação de húmus. É de admirar-se como, apesar desta desconsideração, ainda muitas das árvores demonstram bastante viço e reagem bastante bem aos maus tratos, mas elas apanham sempre de novo. Por qualquer efeito das raízes sobre o pavimento da calçada, em vez de arrumar, levantar ou abrir a calçada, as raízes são logo ferozmente mutiladas, quando não se derruba a árvore toda. As prefeituras raras vezes punem os culpados. Gostaria de poder assessorar intensivamente a Prefeitura de Estrela e muitas outras na questão do cuidado e trato das árvores. Infelizmente, meus inúmeros e variados compromissos em cinco continentes não mais me permitem assumir novos encargos. Sugiro, portanto, a esta Prefeitura e a outras que manifestarem interesse, a entrar em contato com a Prefeitura de Santa Cruz do Sul, onde estamos treinando equipe de dendrocirurgia e reorientando parques e jardins, um trabalho recém iniciado e que se estenderá por vários anos. Poderão acompanhar aqueles trabalhos. Praça Central Infelizmente, quando tive oportunidade de ver esta praça, já estavam em andamento os trabalhos de reforma. Pena, teria gostado de dar-lhes orientação bem diferente! Esta praça sofre de todos os males que já citamos acima. As velhas árvores estão decrépitas, com os estragos que sempre são a consequência de podas desnecessárias ou de falta de dendrocirurgia após estragos causados por ventanias, e todas sofrem de deficiências nutritivas, uma vez que o solo está totalmente degradado. Mas também nisto não temos situação peculiar a Estrela. Quase todas as praças, em quase todas as nossas cidades, estão em situação parecida. Logo me chamou a atenção o solo. Em quase toda a extensão da Praça ele está morto, compactado, nú. Em parte da área se tentava manter gramado em lugar inadequado, com muita sombra, e em toda a parte as folhas secas eram varridas e o corte da grama era levado embora. Não sei se foram usados adubos químicos ou agrotóxicos. Nossos "jardineiros" não têm mais noção de húmus. Ora, folha seca não é lixo, não é a mesma coisa que embalagens plásticas, cacos de vidro, tocos de cigarro com filtro, latas, etc. Debaixo das árvores e dos arbustos ou ervas deve permitir-se o acúmulo das folhas que caem. Elas formam uma boa proteção para o solo, mantendo a umidade, evitando erosão e, a medida que se decompõem, formam húmus, alimentam a microvida e devolvem nutrientes minerais à terra. Por quê será que é tão difícil, as pessoas entenderem este aspecto fundamental da vida dos vegetais??? Os solos da grande floresta tropical úmida da Amazônia estão entre os mais pobres do mundo, em termos de nutrientes minerais. Aquelas frondosas árvores se mantêm com a reciclagem completa e rápida dos nutrientes pelas folhas secas que caem e são logo decompostas e reabsorvidas. Para os que gostam de varrer folha seca - em dia de chuva, pergunto - o qué é melhor, caminhar sobre fôfo tapete de folha seca ou em solo nú? A folha seca não suja o sapato! Em gramados, é claro, folhas secas, se forem grandes, podem ser vistas, por alguns, como antiestéticas. Neste caso, se forem recolhidas, devemos levá-las a um composto e, mais tarde, devolver o terriço ao gramado. Quanto à tosa, melhor é tosar com mais frequência, para que o corte seja mais curto e deixá-lo alí mesmo. Ele será reabsorvido pelo gramado. O solo se manterá vivo e fértil. Em Brasília, se pode observar muito bem como todos os gramados, especialmente nos taludes dos trevos de tráfego, estão se degradando até morrer. Tenho observado como o produto da tosa é cuidadosamente ensacado em sacos plásticos e levado ao lixão. Por outro lado, por que insistir em gramado em taludes íngremes? Bem mais sustentáveis e belos são complexos arbustivos. Na reestruturação da Praça, uma vez que ela é toda sombreada, devem ser abandonados os gramados. Nos canteiros, poderão ser mantidos complexos permanentes de plantas de sombra, arbustivas ou herbáceas. Alguns canteiros ou partes deles poderão ser mantidos apenas com a cobertura de folhas secas caídas das árvores. Isto teria valor educativo para o público que precisa aprender o que é o processo de humificação e mineralização da matéria orgânica num ecossistema. Deixemos também que germinem e se desenvolvam, pelo menos até o ponto em que se possa decidir se ficam ou serão transplantados, as mudas que germinam das sementes que as árvores deixam cair. Este é o processo natural de rejuvenescimento do bosque. .Considerações finaisEste não é propriamente um "laudo técnico", é um trabalho de conscientização. O problema não é técnico, é quase filosófico, tem a ver com nossas atitudes e visão do mundo. Por isso, não se atêm só a detalhes da situação das áreas verdes de Estrela. Estas servem de exemplo, apenas. Procuro mostrar o absurdo dos enfoques predominantes e alertar para uma visão mais ecológica. Agradeço à Prefeitura de Estrela a oportunidade que me deu. Há anos quero escrever algo semelhante, que sirva para todas nossas prefeituras. Permito-me, portanto, entregar este relato a outras administrações municipais, a escolas e a usá-lo em nosso trabalho de conscientização ambiental com crianças e jovens na Fundação Gaia. Gostaria que este trabalho fosse, pela Prefeitura, entregue não somente a todos os seus funcionários, mas também a todas as escolas. Precisamos alertar, fascinar e motivar às crianças de hoje. Na maioria dos casos, nas escolas quase nada recebem em termos de conscientização ecológica, ao contrário, muitos professores contribuem para aumentar a alienação. Espero, mais adiante, encontrar o tempo para ampliá-lo e generalizá-lo. Incluiremos, então, os aspectos de saneamento com propostas alternativas, baratas e acessíveis para o destino do lixo e o tratamento de esgotos. José A. Lutzenberger

Francisco disse...

A carta acima serve como exemplo para as várias Prefeituras da região.